História do rádio acompanha emancipação da mulher no Brasil

História do rádio acompanha emancipação da mulher no Brasil

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O passar das décadas mostra a luta das mulheres para alcançar o espaço no meio e na sociedade.

Por Germano Assad


Ainda existe quem se surpreende em saber que Maria Beatriz Roquette-Pinto foi  uma das primeiras primeiras locutoras do Brasil. Isto ocorreu na década de 1920, ao mesmo tempo em que seu pai Edgard Roquette-Pinto realizava as primeiras transmissões oficiais com autorização do governo.      

A doutora em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, Juliana Cristina Gobbi Betti, conta que Maria Beatriz Roquette-Pinto, ainda menina, estreou na rádio logo nas primeiras transmissões. “A gente tem a mulher participando desde o início, ela foi, por exemplo, diretora de programação, produtora, exerceu outros cargos e funções para além do entretenimento”, relata.

Autora da tese Informação crítico-emancipatória com perspectiva de gênero: os direitos das mulheres em programas radiofônicos femininos, apresentada recentemente na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), entende que a história da presença da mulher no rádio é muito ligada à própria evolução dos direitos da mulher no Brasil.

Segundo ela, apesar de já haver muitas mulheres jornalistas, à época, as celebradas, e que acabaram virando a “cara do rádio”, foram as que exerceram o ‘papel’ esperado das mulheres naqueles tempos: entretenimento. Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Emilinha Borba são exemplos clássicos.

“A gente tem que entender que nesse contexto da chegada do rádio no Brasil, início dos anos 20, a mulher não era nem considerada efetivamente cidadã. Para trabalhar, ela precisava de autorização da família, pai ou irmão. Havia lugares considerados propícios para elas, e o ambiente de rádio não era, definitivamente, um deles. Principalmente para as casadas”, lembra.

Popularização

Passado o momento de euforia com as primeiras transmissões, a presença das mulheres nas rádios começa a aumentar, junto com a popularização do meio. E elas participam cada vez mais da programação, essencialmente como apresentadoras e produtoras de programas femininos e infantis, segundo Juliana, que mapeou cerca de 40 programas entre as décadas de 1920 e 1970, para a pesquisa acadêmica.

“Esses programas em muitos aspectos eram inovadores porque tratavam dos direitos das mulheres, principalmente o direito à instrução, a educação. Eram programas que traziam sim questões como receitas, dicas de beleza, moda, mas traziam também informações sobre saúde, maternidade, literatura”, pontua.

Programas conduzidos por mulheres protagonistas na construção da história do rádio e da luta por direitos básicos, como Sônia Veiga, Maria Muniz, Sarita Campos e tantas outras. Muitas vezes, dispondo de nomes artísticos e pseudônimos como uma forma de autoproteção aos julgamentos da época.

Anos de chumbo e redemocratização

Já na década de 1970, com a ditadura militar, os programas com liberdade para explorar temáticas de interesse crescente por parte das mulheres, por óbvio, ficaram escassos. Mesmo no cenário já não tão favorável, Juliana destaca o papel de uma, entre tantas figuras importantes: Daysi Lúcidi.

Polivalente, e com história pregressa nas artes e na política fluminense, ela estreou, em 1.971, na Rádio Nacional, o “Alô Daysi”, programa direcionado para donas de casa no Rio de Janeiro. Apesar das receitas e notícias sobre famosos, aparentemente inofensivas, ela não abria mão de um quadro em que apresentava problemas da cidade e posterior cobrança por soluções às autoridades locais.

Com a redemocratização, começa um movimento muito forte de emissoras comunitárias produzindo conteúdos ligados a organizações não governamentais e movimentos sociais.

“Da segunda metade dos anos 80 para frente vão surgindo, localmente, programas que envolviam questões voltadas a trabalho, cidadania, meio ambiente, violência contra a mulher. Foi assim que surgiu o Viva Maria, por exemplo”. Precursora da causa feminista no rádio brasileiro, Mara Régia era a voz à frente do programa. 

Figura icônica, Mara sofreu em casa as violências da versão mais extremada do machismo – a misoginia – pelo próprio pai. Com ampla bagagem pedagógica pelos anos atuando como professora, a também jornalista assumiu, naturalmente, posição de liderança no empoderamento de brasileiras vítimas de violência. E ecoou suas mensagens pelas ondas do rádio, dos grandes centros políticos e econômicos, como Brasília e São Paulo aos rincões do país, atuando pela Rádio Nacional da Amazônia.

O longo e contínuo processo de empoderamento da mulher na sociedade brasileira, especialmente no que diz respeito à emancipação financeira, abriu, enfim, os olhos das emissoras comerciais, que segundo a pesquisadora, passaram a se interessar, a partir dos anos 2000, pelo perfil da mulher empreendedora, com poder aquisitivo e autonomia.

Paraná

Uma das maiores dificuldades de Juliana, ao longo da elaboração da tese, foi a escassez de registros históricos fora do eixo Rio de Janeiro – São Paulo. Empecilho que não a impediu de destacar duas paranaenses com lugar cativo entre as pioneiras.

A Rádio Difusora de Ponta Grossa, atualmente Lagoa Dourada, foi a casa da primeira brasileira a atuar como DJ em uma emissora: Diva Ayres de Moraes. Apesar do lugar de destaque na história da radiodifusão brasileira, basta colocar o nome de Diva no google para constatar a ausência de registros sobre sua atuação e importância.

Outra emissora tradicionalíssima, paranaense, a Rádio Clube, abrigou a primeira locutora da história do estado, Alice Xavier, de 1.931 a 1.933.

Hoje

“Temos uma situação bem mais confortável, as mulheres hoje ocupam cargos de direção, tem mais reconhecimento da voz como profissionais do jornalismo. A informação vinda da voz feminina tem a mesma credibilidade que a do homem hoje, superamos aquela necessidade de ter voz grave e empostada”, opina a pesquisadora.

Para ela, ainda há muita coisa a melhorar, e a luta por equiparação salarial e em questões que envolvem o trabalho doméstico, maternidade, divisão de tarefas fora do ambiente de trabalho, dupla, tripla jornada de trabalho que impedem profissionais capacitadas de progredirem nas carreiras, devem ser vistas como lutas da sociedade como um todo, e não só das mulheres. E o rádio tem muito a contribuir.

A constatação mais importante com o intenso trabalho de pesquisa, ainda segundo a pesquisadora, é que o rádio segue tendo uma presença muito grande na vida das diferentes mulheres brasileiras, e um potencial enorme para seguir caminhando lado a lado na luta por direitos, que passa por espaços institucionais mas depende também de conscientização, um viés educativo que faz parte do DNA do rádio como meio de comunicação de massas.

“O que eu tiro de considerações deste trabalho, especialmente, é a importância que o rádio ainda tem na vida das mulheres. Tanto da mulher urbana, que escuta a rádio enquanto dirige, vai pro trabalho, leva as crianças na escola, quanto da mulher rural, do interior, com perfil de dona de casa ou não, que escuta o rádio enquanto realiza os afazeres, como entretenimento ou fonte de informação mesmo”, reflete.

Reza um velho ditado, que “a história são os fatos, mas também nossos relatos”. Daí a importância da pesquisa, do resgate histórico e da eterna busca e preservação de nossas memórias enquanto sociedade. Para seguirmos evoluindo, sempre.

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